Seja Bem Vindo!

Eu não preciso de ti. Tu não precisas de mim. Mas, se tu me cativares, e se eu te cativar...Ambos precisaremos, um do outro. A gente só conhece bem as coisas que cativou, por isso tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas!

(Antoine de Saint-Exupéry).


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Um conto: Liberdade Roubada (Reedição)


Um conto...


Ela acordou com vontade de sair de cara lavada.
Não estava com paciência para maquiagem.
Acordou, tomou um banho demorado, lavou os cabelos, passou só desodorante, penteou os cabelos, vestiu jeans, camiseta, o all star preto...e saiu.
Ela estava básica, no bolso só o RG, carteira de motorista, cartão de crédito, R$ 50,00 e a chave de casa.
Entrou no carro e saiu sem direção certa...
Queria estar longe de casa, não pensar em problemas, não se preocupar com a aparência, não saber pra onde ir...e muito menos quando voltar.
Precisava sentir esta liberdade roubada...
Deixou em casa o celular, levou seus óculos porque sem eles não lia nada, pegou também o livro do momento...estava lendo “Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres” da Clarice.
Não pensou em muita coisa não, como disse antes ela estava precisando muito desta liberdade roubada...e ainda mais de roubar-se de tudo e de todos, estar só consigo, desfrutando da sua companhia, falando com os seus botões...sendo só ela, simplesmente ela.
Decidiu simplesmente não pensar e nem se importar que soubessem onde ela estava ou com quem...se demoraria ou não, se voltaria a tempo do almoço ou do jantar...
Encheu o tanque do carro e decidiu descer a serra, a praia era o local mais próximo...sentia urgência em se encontrar rapidamente num lugar que lhe fizesse bem...e foi.
Como ainda era muito cedo, o trânsito estava tranqüilo o que fez com que ela chegasse rápido ao litoral. Decidiu segui rumo ao litoral norte...onde as praias desertas se encontram com mais facilidade...e foi, ouvindo cd e cantando alto, com os vidros abertos, sentindo aquele vento forte acariciando sua pele...liberdade, sim era o que ela começava a experimentar...
Ela precisava esquecer todo o resto....no porta luvas tinha ainda algumas cartas que a remetiam a um passado não muito distante...lembrou delas e parou o carro no acostamento.
Abriu o porta luvas e pegou-as...ela precisava fazer algo que era muito difícil.
Releu uma a uma todas aquelas cartas...depois levantou, respirou fundo e rasgou-as, todas em muitos e muitos pedacinhos. Juntou-os todos e lançou-os ao vento.
Quanto tempo ficou observando os pedacinhos de seu passado se perderem no espaço...sinceramente nunca saberá precisar. Mas quando deu por si outra vez, sentia-se aliviada e leve, então percebeu que fizera exatamente o que precisava ter feito.
Entrou no carro e seguiu pela estrada que levava em direção a não sei onde, só seguiu pelo caminho como quem sabia que se não o fizesse...morria.
Chegou a uma praia perto de Ubatuba...um lugar meio encravado nas pedras. Deixou o carro no acostamento e foi até a água...precisava lavar sua alma. E assim fez...tomou um banho salgado e demorado...relaxou, se entregou ao mar que a envolvia em suaves movimentos de vai e vem. Também não saberia precisar quanto tempo ficou imersa naquelas águas salgadas...saiu e sentou-se na areia. O dia já ia pelo meio, era uma tarde sem sol...mas com sal.
Era um dia diferente dos outros...ela estava roubando a liberdade que tanto precisava. Estava sendo tão somente...ela mesma...
Uma sensação de controle invadiu-lhe a alma, como se tudo que lhe incomodasse fosse pequeno demais...
Ela agora sentia estar no comando de sua vida e sentia-se feliz com isto, já esquecera há quanto tempo não retinha em suas mãos as rédeas de sua própria vida...
Há quanto tempo não fazia suas próprias escolhas...ou há quanto tempo não respirava esta liberdade roubada como fazia agora. Tinha esquecido como era boa esta sensação...
Demorou-se ali, sentada na areia...perdendo-se no vai e vem das ondas...liberando seus pensamentos, esquecendo-se dos sofrimentos...das angústias.
Quando finalmente começou a escurecer decidiu voltar...
Sua volta foi sem pressa, às vezes parava, descia do carro, deitava-se sobre o capô para olhar as estrelas ou confessar-se à lua...especialmente cheia nessa noite...
Demorou mais do que o normal para voltar...de tantas confissões que precisava fazer à sua cúmplice...de tanto que queria sentir até o fim o gosto daquela liberdade roubada e sentida até a última gota...
Quando finalmente chegou, a casa estava do mesmo jeito que tinha deixado...
O celular tinha só duas chamadas perdidas e uma mensagem de texto, nada urgente, nada que não pudesse esperar até amanhã...
Ela não queria se preocupar com isto agora...precisava sentir até o final aquela sensação boa que abraçava sua alma...
Tomou um banho demorado...entrou na sua camisola confortável e macia...
Deitou-se em sua cama...grande e cheirosa...
Fechou os olhos e sorriu...estava de volta, mas estava diferente, sentia-se feliz e corajosa, sentia uma alegria quase infantil de quem apronta uma arte e ninguém descobre...
Era como se um novo mundo se apresentasse diante de seus olhos, um mundo onde ela se permitia sair de cara lavada, para sentir uma liberdade roubada e desfrutar de uma alegria infantil...sem precisar de outra coisa, além de si mesma!
Fechou os olhos e adormeceu...
...Em seus lábios apenas um sorriso maroto!

By: Mari

Um comentário:

Marli Borges disse...

Tomar as rédeas da própria vida, não tem preço. A liberdade é assim, deixa sua marca que pode ser..., bem, nesse caso foi o sorriso maroto. Lindo conto, adorei. Bjs

P.S. Há tempos não aparecia por aqui. Agora estou voltando a blogar.

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